Cimentando oportunidades

Uma visão do setor cimenteiro indiano e suas oportunidades.


Leonardo Ananda Gomes

Fundador e Presidente da Câmara de Comércio Índia Brasil e Cônsul Geral Honorário da Índia no Rio de Janeiro


A Câmara de Comércio Índia Brasil realizou em Novembro de 2017 uma viagem de prospecção para compreender um dos setores mais proeminentes da economia indiana. Já não é novidade para ninguém que o PIB indiano vem crescendo a mais de 7% ao ano, e que um dos principais aceleradores deste continuo e forte desenvolvimento econômico é o setor de infraestrutura. Milhares de moradias, inúmeras pontes, linhas de metrô, viadutos, rodovias e ferrovias vem sendo construídas e aprimoradas em todo território indiano. Cidades inteiras estão sendo remodeladas para receberem a desejada denominação de “Smart Cities. Os aeroportos da Índia já se destacam como os mais modernos do mundo e os portos precisam estar cada vez mais preparados para receberem mercadorias e, principalmente, exportarem os resultados manufaturados do bem sucedido plano de governo “Make in India”. E para possibilitar toda esta transformação, cerca de 400 milhões de toneladas de cimento vem sendo produzidos anualmente no país.


A Índia é o segundo maior produtor de cimento do mundo e para entender bem este posicionamento, vale algumas interessantes comparações. A primeira delas não poderia deixar de ser com o país asiático de maior dimensão territorial (9,59 milhões de km²) e com a maior população do mundo (cerca de 1,4 bilhões de pessoas). A China divulga o surpreendente número de 2.4 bilhões de toneladas de produção anual, o que parece enfraquecer a expressão da Índia no mercado global, já que a produção indiana está aproximadamente 6 vezes menor do que a continental república do mandarim. Mas se pensarmos que encontra-se na Índia cerca de 1,3 bilhões de pessoas, que precisam se alimentar, morar, comprar e, principalmente, se deslocar pelo sétimo maior território do mundo (3,29 milhões de km²), podemos concluir que, talvez, o país que tem o PIB que mais cresce no mundo atualmente, esteja produzindo “singelas” 400 milhões de toneladas, porque está apenas iniciando o seu processo de reestruturação e modernização, o que que já vem acontecendo no seu vizinho chinês há muitos anos. Ou seja, destaca-se aqui o potencial de crescimento do segundo colocado.


A segunda comparação é mais objetiva, mas também ajuda a compreender o interessante posicionamento do mercado cimenteiro indiano no cenário global e a força dos “players” que o integram. A Ultratrech, divisão de cimento do forte Grupo AdityaBirla, líder de mercado em seu país de origem, produz sozinha (em suas 47 unidades) a mesma quantidade de toneladas de cimento do que uma das principais potencias econômicas mundiais: os Estados Unidos da América. Vale ressaltar que as 90 milhões de toneladas que a Ultratech produz atualmente, simboliza aproximadamente 23% da produção indiana.


Finalmente, se dividirmos a Índia em cinco principais regiões, sendo Norte, Sul, Leste, Oeste e Centro, podemos realizar uma precisa comparação com o mercado brasileiro. A capacidade instalada brasileira está em torno de 90 milhões de toneladas por ano, porém em virtude da grave crise política e econômica que o país vem enfrentando nos últimos anos, ocasionou uma significativa retração na produção e, atualmente, o Brasil não atinge 60 milhões de toneladas ano. Esses números são bem semelhantes a região Norte da Índia, que possui uma capacidade produtiva de 94 milhões de toneladas por ano e uma produção aproximada de 70 milhões de toneladas ano. A maior diferença está na utilização da capacidade instalada. Enquanto no norte da Índia a produção gira em torno de 75% da capacidade, no Brasil a produção não chega a 68% da capacidade de suas fabricas. Mas, o objetivo aqui é compreender o real significado dos números que ilustram o mercado indiano. Sabe-se então que o mesmo é oito vezes menor do que o líder chinês, mas com características que indicam que a principal diferença está no momento que vive as duas nações; que a principal empresa indiana do setor produz a mesma quantidade de cimento de uma das principais potências econômicas mundiais; e que apenas uma das cinco regiões do país possui números semelhantes ao mercado brasileiro.


Vale adicionar aqui mais algumas variáveis importantes. Assim, como o Brasil, a India é um país emergente, como enorme potencial, mas com importantes desafios para serem enfrentados. Contudo, o atual governo indiano parece ter entendido a relevância de buscar soluções efetivas e de longo prazo para estes óbices. Dessa forma, apesar de estar vivenciando um momento de euforia econômica, o país tem passado por reformas e medidas com cargas impopulares e que tem gerado apreensão na população. Destaca-se aqui a recente Reforma Fiscal, que implantou o GST (Goods and Services Tax) e a “desmonetização” do final de 2016. O objetivo aqui não é explanar sobre tais medidas, mas possibilitar a compreensão de mais um dado muito importante para explicar o momento do mercado cimenteiro indiano.


Como foi mencionado, a região Norte da Índia está produzindo em média 75% de sua capacidade instalada, e esta porcentagem não muito é diferente nas outras quatro regiões. Assim poderíamos erroneamente concluir que apesar dos grandes investimentos que estão sendo realizados pelo governo indiano para melhorar a infraestrutura do país, da enorme população, da dimensão continental, do forte crescimento econômico e de outras tantas características que poderiam impulsionam o setor, não estão sendo suficientes nem mesmo para viabilizar utilização de toda a capacidade produtiva já instalada na Índia. Na verdade a conclusão é um pouco mais complexa. Como foi relatado, as últimas medidas impopulares do governo (desmonetização e GST) começam a explicar esta dissonância, pois as mesmas congelaram o crescimento de alguns setores da economia no último ano, já que os responsáveis pela aceleração dos mesmos preferiram aguardar para entender os resultados das citadas medidas, antes de retomarem os investimentos.


Além disso, no caso específico indiano, a média da utilização da capacidade produtiva das fabricas de cimento estar em 75% não significa que novos e grandes investimentos não estão programados. E, de fato, não só estão programados como estão acontecendo. Simplesmente, todas das cimenteiras que foram visitadas *** pela equipe da Câmara de Comércio Índia Brasil, durante o trabalho de prospecção deste mercado, afirmaram que possuem novas plantas sendo construídas (“Green field”) ou projetos para expansão das fabricas já existentes (“Brown Field”). Todos estão pensando no longo prazo e estão confiantes na continuidade de crescimento do setor de infraestrutura e sabem que precisam estar com capacidade instalada próxima das novas áreas de crescimento do país. Ou seja, apesar de conhecer os obstáculos que o país precisará enfrentar nos próximos anos, o setor produtivo indiano tem demonstrado grande confiança no futuro do país.


Onde tem crescimento, expansão e confiança, existem boas oportunidades. Fortes grupos indianos que ainda não estavam investindo no setor cimenteiro estão passando a investir, alguns que possuíam uma pequena fatia do mercado resolveram melhorar sua posição, outros já consolidados no mercado indiano expandem-se para outros mercados, empresas globais já presentes na Índia não querem perder espaço e toda a cadeia produtiva do segmento fortalece sua presença em território indiano. Como dizem, a Índia vem se organizando para manter um crescimento sustentável e de longo prazo e para cimentar este desenvolvimento muitas reservas de calcário precisarão ser exploradas e solo indiano ou fora dele, mas isso (as reservas de calcário) é tema para outro artigo.


Fonte: Todas os números e projeções utilizados para a produção deste artigo estão lastreados em informações coletadas durante as reuniões que foram realizadas entre a equipe da Câmara de Comércio Índia Brasil, com a principais associações do setor na Índia, tais como a CMA India (Ciment Manufactorers Association) e com os principais “players” do setor, tais como: Ultratech, Dalmia Bharat ( OCL + DCBL), JK Cement, Lafarge Holcim ( ACC e Ambuja), dentre outras, nos mês de Novembro 2017.

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